Francisco Gomes Avelar

D. Francisco Gomes de Avelar

N. Mato, 17 Jan 1739 - F. Faro, 15 Dez 1816

Arcebispo-Bispo do Algarve


De onde vem...
Viajando... até Bispo
O que encontrou...
A sua vida como Bispo do Algarve e obra, é obra!
“D. Francisco subiu à mansão dos anjos. Alegrias no céu, lucto da terra.”

De onde vem...

Francisco Gomes de Avelar nasceu em Matto, actual freguesia de S. Marcos de Calhandriz - Alhandra, Concelho de Vila Franca de Xira, entre Alverca e Arruda dos Vinhos, a 17 de Janeiro de 1739. Filho de Francisco Gomes e Maria Gomes, modestos mas honrados lavradores daquela região.

Desde muito novo, Francisco Gomes demonstrava uma acentuada inclinação para a vida eclesiástica e assim, em 1753, aos 14 anos, os seus pais deixaram-no partir para Lisboa sob direcção de um tio seu, pároco desta cidade. Terá então vivido toda a experiência do famoso e tão terrível terramoto de 1755.

O tio de Francisco Gomes ensinou-o e preparou-o para ingressar na Congregação do Oratório em 1757, função esta tão bem desempenhada que Francisco Gomes foi Aluno Distinto e posteriormente professor, de talento e muito respeitado, de Filosofia, Teologia Moral e Sagrada Escritura nesta mesma Congregação.


Viajando... até Bispo

Em 1787, tinha ele 47 anos, oratoriano protegido do Núncio Apostólico, Vicenzo Ranuzzi, Arcebispo de Tiro, parte junto com este para Roma e por lá fica até 1788.

Em Roma é apresentado ao Papa Pio VI e outras personagens em evidência deixando boa impressão. Fomentou aqui o gosto artístico nas escolas clássicas de Roma onde terá estudado arte. Conheceu também dois pintores portugueses que lá trabalhavam e trouxe obras de arte que hoje se encontram no Museu Municipal de Faro.

Regressando a Portugal, e logo no ano seguinte, a 16 de Janeiro de 1789, é nomeado e sagrado Bispo do Algarve. Quando toma assento na Catedral de Faro, a 26 de Abril, este Bispo de princípios tão humildes e sem sombra de vaidade, recusa formalmente qualquer gala e pomposidade próprias do evento. Sem qualquer perca de tempo, faz uma visita geral às várias freguesias (precedente de muitas outras visitas em que demorava o tempo que fosse necessário) e encontra um Algarve completamente desorganizado e com tudo por fazer.


O que encontrou...

Todos os sectores de actividade estavam deficientes, grande parte das igrejas e capelas em ruínas, não se sentia a acção das Misericórdias, os bons costumes nas diversas classes sociais estava degradado, o nível geral da instrução do povo estava muito baixo, não havia praticamente vias de comunicação e o pouco que havia estava em mau estado, o que também se manifestava na dificuldade de transporte de mercadorias, a defesa militar deixava muito a desejar, especialmente nas posições estratégicas da província, e a época era de perigo eminente devido às invasões francesas napoleónicas que já ocupavam os vizinhos andaluzes. Este estado em que se encontrava a província devia-se a batalhas, saques, explorações ilegais e diversas outras irregularidades por parte de senhorios de outras partes do país, e terramotos que sofreu, com especial foco para o de 1 de Novembro de 1755. É este o ambiente que se encontra no Algarve à sua chegada.


A sua vida como Bispo do Algarve e obra, é obra!

Como diz Ataíde Oliveira, D. Francisco Gomes de Avelar começou logo por interpretar as palavras do evangelho: docete ommes gentes - Ensinai todas as pessoas. Esta era realmente a sua forma de viver e como acrescenta ainda este ilustre autor, vivia de acordo com non solo pane vivit homo - nem só de pão vive o homem, como iremos ver.

Escreveu a D. Maria I que desejava pedir ao Papa dois contos de réis a favor da Inquisição contra os interesses da diocese algarvia.

Para contribuir para os bons costumes, educação e orientação do povo, fundou o Seminário de Faro, obra iniciada pelos seus antecessores, que tanto contribuiu para a vida intelectual do Algarve. Ensinava os seus diocesanos pelo exemplo e forma de viver, sendo até caluniado pelos seus inimigos e forçado a apresentar-se no Paço diante de D. João (futuro D. João VI) de onde saiu de cabeça erguida.

Vivia muito modestamente auxiliando com todo o dinheiro que conseguia os mais necessitados chegando a pedir esmola para melhor os socorrer. Estipulou mesadas certas às viúvas e órfãos, favorecia os recolhimentos dos órfãos em Faro, Lagoa e Tavira. Tinha sempre uma palavra amiga e conselhos paternais, um espírito verdadeiramente caritativo raramente visto. Pela província e o seu desenvolvimento tudo fez, nas diversas áreas desde o ensino à agricultura, do comércio à arquitectura, da caridade e assistência à defesa militar, não havia para ele obstáculos intransponíveis. Com "zelo de chefe e brandura de pai" levava a "santa crença" a toda a província.

Pela assistência, fundou hospitais como o da Misericórdia de Faro com as suas próprias rendas e esmolas que pediu, melhorou os que já havia como as Caldas de Monchique e o Hospital dos Pobres. Restaurou igrejas e capelas e construiu outras desde os alicerces (como as de Albufeira, S. Brás, Cacela, Tavira, Aljezur e S. Luís em Faro) às suas custas e sob a sua imediata inspecção, construiu também cemitérios perto destas. Era tanto o seu zelo pela arquitectura e património do Algarve que se pode constatar numa carta de 6 de Dezembro de 1789 em que escreve uma censura às vexatórias deturpações praticadas nos trabalhos arquitectónicos da Igreja de Silves escrevendo:

“Vimos o estado do Edifício d’esta antiga Sé; e com magua do nosso coração reparamos, que, sendo o mais bem regulado Templo d’esta nossa Diocese, e muito venerável pela sua antiguidade, e por terem n’elle florecido, e ahi trabalhado um grande numero de virtuosos Prelados nossos predecessores, e ter servido por algum tempo de sepultura ao Senhor Rei Dom João segundo, poude a ignorância imprudente dos Administradores, que tem sido cuidado da sua conservação e fabrica, deitar a perder a sua nobreza e formosura, já demolindo, ou tirando dos próprios logares os mausuleos de alguns dos nossos predecessores e outros, já com fabricas menos bem pensadas, e até as dos preceitos da arte, e impróprias da architectura da mesma Egreja, já talhando columnas sem nenhuma necessidade e até destruindo de todo o antigo coro alto, e estragando pinturas originaes e de grande estimação e apagando inscripções summamente úteis e necessárias para o conhecimento da venerável antiguidade, barbara imprudência, que bem merecia ter sido severamente castigada pelos nossos predecessores nas pessoas que a commetteram.(...)”

E proíbe a partir daqui que seja feita qualquer obra sem a prévia aprovação sendo penalizado quem o fizesse.

Fundou o Museu Infante D. Henrique e construiu ainda outros monumentos como o Arco da Vila, para o qual mandou vir de Génova o arquitecto Francisco Xavier Fabri e também escultores e pintores para construir escolas artísticas onde diversos algarvios aprenderam a ganhar o sustento das suas famílias.

Mandou construir estradas e pontes como as de Marim, Cacela, Margil e Ludo, rectificando ribeiros e ensinou os processos de cultivação e tratamento de arvoredos chegando mesmo a publicar folhetos como os Pastorais e Instruções, 1813, em linguagem vulgar para que os humildes homens do campo melhor compreendessem, e Instrucções que Deverão Observar os Inspectores da Reparação das Estradas, 1809 com diversos desenhos de construção. Aproveitava as suas viagens, a pé ou na sua mula, a outras paróquias mais longínquas da província para visitar os agricultores e verificar o que e como estava a ser feito, não se poupando a emendas e sermões quando assim fosse necessário; introduziu, ainda, novos produtos que fazem hoje a riqueza do Algarve. Saía também para verificar as vindimas e os que melhor o faziam recebiam prémios.

Assim foi melhorando e aprimorando a cultura e o desenvolvimento do Algarve aos mais diversos níveis.

Assegurou a defesa militar ameaçada pelas invasões napoleónicas que chegavam, mandando reconstruir fortificações nas margens do Guadiana, estava ele na qualidade de Governador interino das Armas do Algarve, despendendo víveres, transportes e vários contos de reis que destinava para um estabelecimento de educação de meninas orfãs. Foi nomeado Comandante das Armas do Reino do Algarve e Presidente da Junta organizada em Faro em 1808 pelo levantamento contra a invasão dos franceses surgindo à frente do movimento vindo de Faro. Depois, na Igreja do Carmo, presidiu à reunião que elegeu o novo Governador das Armas, o Conde de Castro Marim, ficando o Bispo como vice-presidente do Governo da Regência do Algarve. Chegou a organizar um exército que acabou por se tornar decisivo na libertação de Lisboa e do Alentejo. Tão solenes foram os seus feitos que o governo do Rio de Janeiro o contemplou com as honras de Arcebispo. Continuou a praticar todas as suas virtudes até ao fim dos seus dias.

Há ainda uma história sobre ele que diz:

“Um dia, a mãe e a irmã foram visitá-lo. O prelado interrompeu as suas ocupações e correu ao seu encontro mas, repentinamente, voltou as costas às duas senhoras que se tinham feito anunciar, e foi resmungando que o haviam enganado, que não eram a sua mãe e a sua irmã, porque estas não se vestiriam de tal maneira luxuosa. No dia seguinte, tendo deixado longe os vestidos feitos expressamente para a visita, que substituíram pelos trajes humildes da sua aldeia, D. Francisco recebeu-as com o maior carinho.”


“D. Francisco subiu à mansão dos anjos. Alegrias no céu, lucto da terra.”

A 16 de Dezembro de 1816 D. Francisco Gomes de Avelar é encontrado morto no seu leito recostado. Julga-se que terá falecido ao deitar e a data foi assinalada como 15 de Dezembro. Deixou apenas sete cruzados novos que tinha pedido emprestado, era tudo o que tinha, havia rendas por receber que vieram os seus sucessores a recebê-las.

Chamado de Bispo Apostólico pelo Frei Manoel de Cenáculo que tinha por ele grande consideração e amizade, e amado pelo povo como a um pai, consideravam-no um santo, um santo de várias virtudes, ministro de várias pastas.

Ataíde Oliveira conta ainda que

“Quando nas noites de Inverno, à lareira, principalmente nas freguesias da terra, as velhinhas contam as vidas de alguns santos e os seus milagres, têem sempre como obrigatório final: mas o Senhor D. Francisco Gomes era ainda mais santo!

Obras consultadas

Universidade de Coimbra:
- J. Fernandes Mascarenhas em Uma Figura Nacional D. Francisco Gomes do Avelar e sua Obra – 1939
- Commemorações D. Francisco Gomes do Avellar, Bispo do Algarve por M. Costa Alemão, 1860
- Um benemérito da Archeologia – D. Francisco Gomes D’Avellar por J.M.Pereira Botto, 1896
- Biographia de D. Francisco Gomes do Avelar, Arcebispo-Bispo do Algarve por Francisco Xavier d’Athaide Oliveira, 1902
- Contribuição para o estudo da História económica de Portugal – O que os documentos nos dizem sobre alguns aspectos da vida económica do Algarve do Séc. XVIII por J. Fernandes Mascarenhas, 1942
Livros:
- O Algarve por J.Mimoso Barreto, 1972
Sites:
- Catholic-hierarchy.org
- Wikipedia.it