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A Moura do Repouso

Parte das forças que atacaram o castelo de Faro fôra colocada no largo actualmente chamado de S.Francisco, e estas forças eram comandadas por um brioso oficial, robusto e formoso rapaz, solteiro. Este oficial pôde ver em certa ocasião a formosa e gentil filha do governador mouro e dela ficou enamorado. A presença agradavel e o aspecto belicoso do nosso oficial não passaram despercebidos à moura, e esta, em breve tempo, estava em relações amorosas com o valente oficial, por intermédio de um seu escravo, também mouro, e que conhecia perfeitamente as línguas portuguesa e sarracena.

Em certo dia conseguiu o oficial que a sua namorada o recebesse em curto rendez-vous dentro do castelo, combinando-se que o mouro intermediário lhe abrisse, alta noite, a porta, hoje da Senhora do Repouso. Antes da noite dirigiu-se o oficial a alguns dos seus camaradas e disse-lhes:

-Espero entrar esta noite dentro do castelo pela porta do nascente. Se não voltar, depois de pequena demora, é porque caí num laço bem urdido; e então peço-lhes que se o castelo for tomado e lhes venha às mãos a filha do governador a poupem e a não maltratem. Certamente ela não contribuiria para tal traição.

Prometeram-lhes os camaradas cumprir as suas ordens, depois que reconheceram a impossibilidade de o demover da sua empresa.

À hora marcada entrou o oficial no castelo e aí em doce colóquio se entreteve com a dama dos seus encantos. à hora de sair, acompanhou ela o seu querido namorado à porta do castelo, levando consigo um irmão, criança de oito anos.

Quando se aproximaram da porta, disse-lhes o escravo, que da parte de fora estava muita gente, pois que mais de uma vez lhes chegavam aos ouvidos vozes abafadas. A gentil moura estremeceu.

- Não tenhas medo: respondo pelos que estão de fora, disse o oficial à moura, dando-lhe um beijo de despedida.

Neste momento o criado destrancou a porta, fazendo pequeno ruído. Então foi a porta impelida de fora para dentro com muita força e um grupo de soldados cristãos, numa vozearia de estontear começou a gritar pelo seu oficial. A este impulso gigantesco, o oficial recuou um passo e susteve nos braços a sua gentil moura, colocando-a sobre os ombros e dizendo em voz alta:

- Para trás, para trás: estou aqui.

Já a este tempo soava por todo o castelo a voz de alarme. Armados até aos dentes afluiram os defensores à porta do nascente. O oficial, segurando nos braços a moura gentil, viu-se em iminente perigo. Avançou para fora com a moura e, quase ao transpôr a porta, hoje conhecida pela Senhora do Repouso, notou que tinha nos braços não uma formosa jovem, mas apenas alguns farrapos, que se desfaziam à mais pequena e leve aragem. Olhou para o lado pela criancinha e não a viu. Então teve a profunda e tristíssima compreensão da sua desgraça. Caiu no chão sem sentidos.

Passadas horas tornou a si o oficial e viu-se deitado na sua cama sob a barraca de campanha. Tinha a seu lado um camarada, de quem era amigo íntimo.

-Quem me trouxe para este lugar? perguntou.

-Não fales porque te faz mal, o físico proibiu que falasses.

-Eu estou bom, disse o oficial erguendo-se de um salto. Quem me conduziu para aqui?

-Eu e os nossos camaradas. Estavas caído entre a porta do castelo.

-E a filha do governador?

O amigo nada lhe soube dizer da filha do governador. Contou-lhe que, tendo esperado com alguns camaradas a sua saída do castelo, tinham resolvido entrar à força, supondo que o teriam morto, e que o governador ousado acudira com as suas numerosas forças e rechaçaram a pequena força portuguesa. Nesse momento acudiram as forças do mestre e de D. João de Aboim e os mouros tinham sido forçados a entregar o castelo, mediante uma avença com o Rei D. Afonso.

O oficial saiu da barraca e pediu ao amigo que o deixasse. Dirigiu-se à porta do castelo. Ao entrar pelo Arco da Senhora do Repouso viu ao seu lado esquerdo a cabeça de uma criança que se assomava por um buraco.

- O que fazes aí, menino? perguntou o oficial, conhecendo o irmão da sua namorada.

- Estamos aqui encantados: eu e a minha irmã.

- Quem vos encantou?

- O nosso pai. Soube por uma espia que levavas nos braços a minha irmã acompanhada por mim e, invocando Allah, encantou-nos aqui no momento em que transpunhas a porta. Por atraiçoarmos a santa causa do nosso Allah aqui ficaremos encantados.

- Por muito tempo?

- Enquanto o mundo for mundo.

O oficial, um valente, não pode suster as lágrimas. Quis ainda perguntar à criança pela irmã mas a criança desaparecera. Nunca mais ninguém ouviu o oficial rir. Terminado o cerco, pediu licença ao Rei e recolheu-se a um convento, onde professou adoptando outro nome.

Ataíde Oliveira em As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve

Filhós à beira rio

Junto ao Rio Seco, antes de este ter secado, estava um hortelão à espreita de lebres e coelhos que vinham à sua horta roer as alfaces quando ouviu umas conversas de pessoas ali perto. Era noite alta pois que a esse tempo ouviu as pancadas do sino do relógio da cidade, anuncioadoras da meia noite. Estamos nós no tempo em que D. Afonso III estava em Albufeira em grande namoro com a filha do governador mouro daquela vila. Reparou o hortelão cautelosamente nas pessoas que conversavam e conheceu perfeitamente que eram um mouro e uma infeliz moura.

- perdoa-me pai! - exclamava a jovem em soluços

- não posso filha minha, e Allah sabe que com pena te aplico tão duro castigo. - e ao mesmo tempo começou a fazer sinais sobre a cabeça da filha pronunciando umas palavras ininteligíveis e dizendo no fim:

- aqui permanecerás encantada até que duas pessoas de sexo diverso amassem filhós com a água deste rio, na vérpera de S.João e aqui as venham comer depois de mutuamente se terem atirado à cara com as mesmas filhós. - e o mouro dizendo estas palavras atirou a filha ao rio lançando também uma enorme caixa cheia de dinheiro.

Na próxima véspera de S. João, o hortelão e sua mulher amassaram as filhós com a água do rio e junto do lugar do encantamento comeram as filhós depois de se terem mimozeado com as mesmas que mutuamnete atiravam à cara um do outro. Quando acabaram de comer as filhós, apareceu-lhes uma linda mulher vestida de moura que lhes agradeceu reconhecidamente o seu desencanto, desaparecendo imediatamente. Então o homem atirou-se ao rio e do fundo transpôs para terra uma caixa cheia de dinheiro em ouro.

Ataíde Oliveira em As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve

Os figos d'ouro

Em certa ocasião de uma bonita manhã de primavera, há já muitos anos, dirigia-se uma pobre lavadeira com a sua trouxa de roupa para o lavadoiro, viu duas esteiras de belos figos de comadre expostos ao Sol. Não se espantou a lavadeira de ver os figos ao Sol, porque em Faro e em todas as mais terras do Algarve é isso muito vulgar, mas estranhou realmente vê-los ali em época que não era a própria.

Cobiçou-se dos belos figos e tirou da esteira alguns que meteu num bolso, sob o vestido, por cima do saiote, a que o povo deu o nome de patrona. Concluída a lavagem da roupa, voltou a lavadeira para sua casa e não mais se lembrou dos figos durante o dia. Ao deitar-se lembrou-se dos figos e tirou-os da patrona. Ficou então profundamente surpreendida: em vez dos belos figos encontrou-se com ricos dobrões em ouro.

Não dormiu durante toda a noite, pensando que ali andava o poder oculto da moura encantada. Logo que amanheceu, ergueu-se da cama e resolveu ir ao lugar onde vira as esteiras com os figos. Já não os viu. Daí em diante, a todas as horas do dia e da noite, ali ia esperançada de encontrar os apetecidos dobrões e nunca mais se repetiu o feliz encontro.

Ataíde Oliveira em As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve

As três irmãs

Estando as três irmãs
assentadas ao seu lar,
ensinando uma p'ra outra,
a coser e a bordar;
dizendo a mais velha
- 'Mana vamo-nos deitar'
a mais nova respondeu:
- 'Mana vamos ao quintal'.
Levemos tochas acesas
debaixo do parreiral,
que lá está um velhinho,
que eu quisera matar.

Já o sangue era tanto
que a casa do pai foi dar;
- 'Meu pai abra-me essa porta
abra-me de par em par
que aqui venho ferido,
que me quiseram matar.

- Meu filho, quem te fez isso
que eu me quero ir vingar?

- Foram as três irmãs
debaixo do parreiral;
uma chama-se Maria,
outra chama-se Guiomar,
a outra chama-se Esperança,
que a quero alcançar.

Meu pai quando eu morrer,
não me enterre na igreja,
nem adro que foi sagrado:
enterre-me naquele canto,
donde fui o namorado.

Quem por aqui passar que diga
'Já morreu o malogrado!
Morreu do mal de amores,
que é um mal desesperado',
ponham-me aqui um letreiro,
rezando à Virgem Maria,
perde quem anda na noite,
ganha quem anda de dia

E assim, o pobre namorado, no meio da noite confundido com o velhinho, viu a sua vida por terminada...

Ataíde Oliveira em Romanceiro e Cancioneiro do Algarve