Sé Catedral

37° 0' 47.9" N, 7° 56' 5.6" W

 

Antes dos portugueses...
Chega D. Afonso III
Catástrofes atravessadas



Antes dos portugueses...

Antes de termos conhecimento de qualquer construção de templo em Faro, um dado parece certo: no início do Séc. IV, Faro, de nome Óssonoba na época, era bispado, pois no Concílio de Elvira que data de entre 300 e 305 d.C. assina, em oitava posição, o Bispo de Óssonoba: Vicente.

Como no Império Romano o cristianismo era proibido nestes primeiros séculos, dificilmente haveria já algum edifício cristão construído, de qualquer forma, os ossonobenses tinham um bispo e há literatura árabe e romana que descrevem uma magnífica igreja de enormes colunas de prata, ficando ainda a dúvida persistindo.

A invasão dos visigodos a Ossónoba no Séc IV foi basicamente política, donde a vida da cidade de certa forma manteve os seus hábitos. Terá então agora sido construída a tal magnífica igreja, Catedral de Ossónoba, referida na literatura da época? Ao que tudo indica, haveria um templo romano anterior a esta Catedral. Sabe-se que esta igreja era frequentada por gentes de todo o Algarve (Gharb) e talvez até de mais longe. A superfície encontrava-se 3 metros abaixo da de hoje e vários foram os achados encontrados a essa profundidade, mas havia também um morro de oito metros de altitude.

Quando chegaram os árabes, que venceram os visigodos em 712, a cidade ficou bastante destruída. Havia nela um castro, um grande forum romano e a dita catedral, igreja visigótica de Santa Maria, que terão poupado e aproveitado para a prática do seu culto. Com os diversos sismos que a região sofre, esta terá ruido e teriam então nivelado a cidade e construido a mesquita, nos inícios do séc XIII, à altitude em que encontramos hoje a Sé Catedral. Mas seria a antiga Igreja de Santa Maria neste local? Parece ainda incerto. Os cristãos continuaram a existir, pois se os árabes eram rigorosos no seu território e conquistas, no domínio religioso eram tolerantes. Os cristãos árabes designam-se Moçárabes.

Em 1169, o bispado algarvio passa para Silves por ordem de D. Sancho I, mas só aí ficou por dois anos.

A 29 de Março de 1249, D. Afonso III conquista Santa Maria de Faaron, ou seja, Faro.


Chega D. Afonso III

Depois da conquista de Faro aos árabes por D. Afonso III, a mesquita foi purificada e serviu a população cristã por dois anos. Foi então demolida para que, com a autorização e apoio do Arcebispo de Braga D. João Viegas, se construísse a igreja paroquial de Santa Maria. Concluídas as obras em 1271, a Igreja foi entregue à Ordem Religiosa-Militar de Santiago como reconhecimento pela colaboração na reconquista de Faro aos mouros.

A população cristã era abundante e a igreja pequena, por isso, em 1321, D. Dinis determina a venda de um edifício anexo para que se pudessem fazer obras de ampliação. No Séc seguinte é realizada uma grande renovação da igreja, e tal é a transformação, que são desta época os elementos medievais mais antigos que ainda podemos encontrar, como é o caso da torre da fachada.

A 20 de Outubro de 1539 é aprovado, pelo Papa Paulo III e pelo Rei D. João III, o pedido do Bispo do Algarve D. Manuel de Sousa para a transferência da Sede Episcopal de Silves para Faro. Porém, apenas 38 anos mais tarde, a 30 de Março de 1577 é que este se vem a concretizar, sendo durante 8 anos o assento episcopal nesta Igreja, agora elevada a Sé Catedral do Algarve.


Catástrofes atravessadas

Em 1596, as tropas inglesas do Conde de Essex, Robert Devereux, desembarcam perto de Faro saqueando cidades, roubando preciosidades como a biblioteca do Paço Episcopal e também um pentateuco, o primeiro livro impresso em Portugal (em Faro). Por falta de interesse nestas obras, o Conde ofereceu-as ao seu amigo Thomas Bodley, hoje incluídas na Biblioteca Bodleyana em Oxford. Além deste saque incendiou a cidade deixando-a praticamente reduzida a escombros, e a Sé Catedral danificada. Pode ler-se num relatório do Bispo D. Francisco Martins Mascarenhas ao Papa Clemente VIII o seguinte:

"a Sé foi queimada; só ficaram de pé oito capelas por serem de abóbada; os retábulos foram queimados; as paredes ardidas; as naves arruinadas; queimou-se o coro com os orgãos, livros de canto, a casa do Cabido e o Cartório; foi roubado prata, ornamentos, sinos e relógio"

São novamente realizadas grandes obras, agora com estilo maneirista e barroco.

Uma prova do estilo maneirista é o retábulo da Sé, construído em 1643, que podemos ver na imagem ao lado. Houve ainda mais obras nesta década, como a reedificação da capela-mor e a construção da tribuna para o futuro orgão, a mando do bispo D. Francisco Barreto I.

Em 1674, é construído o retábulo da capela do Santíssimo.

Em 1715 são construídos em Lisboa, pelo alemão Johann Heinrich Hulenkampf discípulo de Schnitger e oficial na oficina de Arp Schnitger, dois órgãos gémeos de estilo barroco. Um desses orgãos encontra-se na Sé Catedral de Faro desde 1716 e o outro foi enviado para a Sé de Mariana, em Minas Gerais no Brasil, por ordem de D. João V em 1750. Mais tarde, em 1752, é feito um trabalho de douramento e decoração chinoiserie sobre um fundo vermelho por Francisco Correia da Silva.

Com o terramoto de 1722, fortemente sentido em todo o Algarve, a Sé ficou danificada e o orgão foi colocado na tribuna em que hoje podemos vê-lo. Foram feitas obras de restauro concluídas em 1725. Em 1755 Faro sofre novo terramoto, o famoso Terramoto de 1755, e a Sé volta a sofrer grandes danos necessitando novamente de obras de reconstrução, especialmente na torre sineira. Têm desde então, com alguma frequência, sido realizadas diversas obras de restauro um pouco por toda a Sé, tanto no seu interior como no exterior.

Podemos também nela ver a capela São Francisco de Paula ou das Relíquias com trabalho de talha do séc XVIII e um precioso relicário com uma naveta em madrepérola.

Em 1955, a Sé Catedral de Faro é classificada como Imóvel de Interesse Público. É um monumento a visitar, cheio de história e com um terraço acessível a visitas onde pode vislumbrar uma vista magnífica. Aceda aqui para encontrar onde prenoitar nas imediações da Sé Catedral (procure por Faro e então selecione Catedral de Faro no painel à esquerda item "Distância") e aproveite também para visitar os vizinhos Seminário São José e Paço Episcopal.



Obras consultadas

Livros:
- Faro edificações notáveis – Francisco Lameira, Câmara Municipal de Faro, 1995
- O Algarve - J.Mimoso Barreto, 1972
- Faro, evolução urbana e património - Rui Mendes Paula, Frederico Mendes Paula, 1993
- História, Resposta a Tudo, 1987 (Título Original: Fact Book of Histoty, de Jean Cooke, Ann Kramer e Theodore Rowland-Entwistle)
Sites:
- igespar.pt (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico)
- radix.cultalg.pt (Ministério da Cultura)
- http://www.monumentos.pt